domingo, 3 de março de 2013

(59) - RECORDANDO MEU PRIMO VIRGOLINO.




Virgolino não foi apenas mais um primo.
E, se não existem mais uns tantos (primos!) na família, eu sou um dos culpados pois o ramo da árvore genealógica dos Neves do Milreu, onde se encontra escrito o nome do Mário, meu pai, por minha escolha, não floresceu.
Terminou com o meu nome.
Agora, penso que o Mário Neves não merecia que eu tivesse amputado o seu ciclo. 
Lamento-o, por ele, já que pessoalmente nunca me arrependi até hoje, da opção tomada.
Não tendo sido pai biológico, afinal, em miúdo, acompanhei o princípio da vida de dois primos que praticamente nasceram em casa dos meus pais, logo a seguir ao casamento dos seus progenitores.
E mais tarde, já nos “cinquentas”, por ironia, o destino quis que fosse “pai” de dois jovens. Um com 8 e outro com 10 anos. Exactamente naquela altura da vida em que nos começamos a formar física e mentalmente, e que se devem começar a consolidar os alicerces que determinarão a viagem rumo ao futuro.

Decisão contrária teve-a o Virgolino e assim o meu tio David viu transformar-se em tronco a sua secção da árvore, pois logo a seguir ao seu filho, despontou o Paulo e recentemente a confirmação da continuidade, com o nascimento do Guilherme, o neto cujo projecto de vida, o Virgolino lamentavelmente não poderá acompanhar. Mas previdente, deixou o Paulo que dificilmente não terá herdado grande parte do espólio humano do seu pai.
Que tremendo "professor" o André perdeu. Quanto o avô "Vírgulas" lhe poderia ser útil com a sua experiência de vida, o seu coração sempre aberto a quem necessitasse da sua enorme generosidade, se naquele mês de Fevereiro, à traição, não tivesse sido obrigado a deixar-nos.

O Virgolino nasceu em Lisboa e cedo foi para o Milreu, onde frequentou a Escola Primária, regressando à Capital depois de terminada a "4ª Classe". anos. As “férias grandes” passava-as lá, no lugar, em casa dos avós maternos.
Meu pai, seu tio, e toda a família tinha igualmente nascido no Milreu.


Eu também fui a excepção. Nasci ainda no tempo em que se vinha ao mundo em casa, em Lisboa onde meu pai tinha encontrado aquela que viria a ser a minha mãe.
Todos os anos lá íamos passar o Verão, todo o mês de Agosto, salvo um ou outro em que gozávamos as duas primeiras semanas na praia, nas instalações da F.N.A.T. perto da Costa da Caparica.
Como menino da cidade, devo ao Virgolino muito do que me fez mais tarde apreciar a vida no campo. E com as recordações eternas dos momentos que passámos ganhei em adulto, graças a ele, carinho e paixão por aquela terra. Ainda hoje uma terra difícil, duríssima, com pedras em excesso e escassez de terreno arável, numa encosta abrupta, oliveiras que se erguiam altas como pinheiros, sem uma loja de comércio, a horas de caminho, a pé, até à última paragem da “carreira”, do Adelino Pereira Marques no Alto da Louriceira, ligação única a caminho da civilização.
Do Milreu, da minha meninice, lembro-me dos gatos vadios apelidados de "ladrões", de coelhos, galináceos, animais lanígeros e um porco por cada família engordando nos "currais" para alimentação própria e não só. Eram tratados e poupados para enriquecer as refeições dos " lisboetas" - na sua quase totalidade nascidos no lugar - para matarem saudades das morcelas, dos torresmos, do presunto de da broa recheada, quando chegados na época estival para passarem um mês com a família, vinham lá de longe, da grande cidade, onde ganhavam a vida, trabalhando.
Eram esperados com ansiedade por mulheres, filhos, restante família e vizinhos que os tinham visto nascer.

O lugar, na maior parte do ano era essencialmente povoado por mulheres.
Homens, poucos. Alguns com deficiências que não lhes permitiam procurar trabalho noutras paragens ou outros que se dedicavam à recolha da resina.
E jovens. Rapazes e raparigas. 
Os primeiros, que ajudavam nas lides do campo desde tenra idade, esperavam crescer o suficiente para que um dia fossem chamados para junto do pai, muitas vezes passando primeiro pelos trabalhos na "borda de água" para onde eram transportados em "ranchos" até aos terrenos húmidos das margens do Baixo Tejo.
Elas, fadadas para eternas residentes, suspiravam para que, na idade casadoira, algum moço do lugar ou das proximidades pedisse a sua mão aos pais, sendo que o futuro próximo, na maioria dos casos, era a continuidade no mesmo lugar, aguardando que um dia o marido alcançasse a estabilidade de emprego e de salário que permitisse a sua saída da "terra", para junto dele.
Quero dizer! Só se encontravam profissões " liberais" no Milreu, cada um tratando dos seus minifúndios alguns espalhados pelos arredores próximos.
Na altura das vindimas e da apanha da azeitona, para além dos vizinhos se apoiarem mutuamente, tinham por vezes a ajuda de alguns dos já referidos "lisboetas" que excepcionalmente lhes davam "uma mão", naqueles  períodos de trabalho redobrado.
Não existia um burro, uma vaca, um boi, um automóvel, uma "tasca", uma loja de comércio. Tudo ficava a "milhas".  
Alfaiate só nas Cortes (Alvares). 
Quantas vezes eu e o Virgolino fizemos, sozinhos e sempre a correr, o percurso Milreu, Cortes, Milreu. Primeiro para ele ir tirar as medidas e depois, aquando das provas de um fato. 
O alfaiate era lá em cascos de rolha e recebera ordens de meu tio para fazer a obra. 
Era uma corrida de vários quilómetros praticamente sem pararmos. 
E dava-nos um grande "pica" por estarmos entregues a nós próprios. 
Sem adultos. 
Que sensação de liberdade, correndo, gritando, os melros a levantarem vôo assustados. Ver qual de nós chegava primeiro ao cimo da ladeira, levantando poeira a pontapear as pinhas caídas ao longo do caminho. 
O Virgolino habituado ao calor e às dificuldades do percurso era vencedor na maioria das disputas.
Mas o Milreu albergava alguns segredos. 
Foi lá que vi em funções um alambique. 
Pequeno e ilegal, era propriedade de meu avô e estava colocado na casa do forno onde, para além de se cozer o pão, também se  destilava aguardente de medronho. Só mais  tarde, quando tive idade para ir ao cinema é que me assustei ao ver aquelas "fitas" da Lei Seca, dos "moonshiners", das destilarias ilegais.
No entanto, o que então me vinha á memória era o "refresco"! Nome dado à mistura de aguardente de medronho com a fresca água da "Fonte da Moura" que corria de uma telha portuguesa, feita bica, por onde escorria uma água límpida, assim recolhida depois de descer entre musgos e fragas, desde lá do alto, ainda mais alto que a "Chapada"!
Minhas tias, mais de uma vez diariamente desciam o "quelho" em direcção à ribeira e à Fonte da Mouras, com um cântaro à cabeça, para o encherem de água.  Regressadas a casa, deixavam a vasilha no chão húmido e de terra batida, "náloje", situada por debaixo da casa de habitação. Uma dependência escura, onde grandes arcas conservavam mantimentos. Passadas algumas horas, a água atingia aquela temperatura que nenhum frigorífico iguala.
  
 E que bem sabia beber o "refresco", servido por minha tia Deolinda ou pela minha avó Rita, à chegada a casa. 
Na varanda, com uma bela vista para o verde dos pinhais subindo a encosta que lhe ficava em frente. Os homens iam limpando o suor da testa, enquanto as mulheres guardavam as "sogras" que as ajudavam a equilibrar na cabeça as canastras onde, para além de um ou outro bebé, haviam transportado as bagagens dos lisboetas, repletas de tudo o que não tinham ao longo do ano. Eles traziam artigos de primeira necessidade, importantes não se encontravam naquelas paragens. 
Indispensáveis, mas que se recebiam como prendas.
Era o momento de descansar da caminhada desde o Alto da Louriceira por caminhos estreitos, abertos por gerações de pés descalços, envoltos pelo cheiro dos pinheiros engalanados com os vermelhos púcaros de barro a recolher a resina.
Quando atingi a idade de me locomover, abandonei a canastra da minha tia Deolinda e fazia o caminho todo a correr, desde a Louriceira até ao Milreu, atrás do Virgolino que percorria a alta velocidade aqueles trilhos muitas vezes traiçoeiros, roçando nos fetos e nas silvas que os bordejavam sem que lhe deixassem marcas. 
Eu, habituado a passeios e à calçada Portuguesa tinha dificuldade de acompanhar aquela energia quase selvagem do meu primo. 
Eu tinha vergonha pois ele era (claro... foi sempre!!!) três anos mais novo que eu.
E as coisas que ele sabia? 
E o que ele fazia? 
Eu ficava de boca aberta ao vê-lo, com uma agulha de pinheiro, obrigar minúsculas aranhas a saírem de pequenas teias brancas, quase como casulos, encaixados nos pequenos buracos entre as pedras das paredes exteriores das tradicionais casas beirãs.
Íamos para a "ribeira" tomar os nossos banhos fazendo represas onde, brincando com um pequeno barco, passávamos largas horas até sermos acordados pelos chamamentos das famílias.
E as fisgas que ele fazia? 
E as nossas batalhas com os carolos do milho?
Na "Horta" e até na ribeira, o Virgolino ajudava o avô materno, com quem vivia, a guardar o seu pequeno rebanho que apascentava naqueles sítios em dias alternados.
O avô "Manel Henriques", tinha apenas um braço, o outro desaparecera ali nas curvas de "São Simão", perto de Figueiró dos Vinhos. 
Acidente por distracção (?), numa altura em que as grandes janelas das camionetas de "carreira" eram manejadas pelos próprios passageiros. Braço de fora, a viatura roçou numa rocha numa curva mais apertada... e mal negociada. 
Murmurou-se que o motorista ficara (ainda mais!!!) "tonto" com as difíceis curvas, depois de uns "copos de três" ingeridos na última paragem. Em Pernes!
 A incapacidade do avô Manel levou o Virgolino a dedicar-lhe particular atenção apoiando-o, entre outras tarefas,  na missão de vigiar o rebanho. 
Eu ficava a ver o meu jovem primo a gritar para a "Beta", uma cabra linda, tentando afastá-la de sítios interditos ao seu apetite. 
E quando o gado não obedecia, lá partia uma pedra certeira, atirada por ele uma para o sítio proibido, fazendo estardalhaço, assustando o animal na tentativa de o afastar,  por momentos, da zona da tentação.
Só não ajudava o avô a jogar à "Sueca". 
Nem o “Manel Henriques” permitia. 
Sim, ter apenas um braço não impedia o avô de uma jogatana, mau grado a sua desvantagem perante os adversários que em boa verdade jogavam também com as cartas dele. 
Bastava observar os "montinhos" que ele fazia com as cartas separadas por naipes. Apesar das figuras viradas para baixo... 
O Ti Bernardo, sogro de um tio nosso (meu e do Virgolino) por vezes seu companheiro de "mesa", safava-se melhor. Faltava-lhe uma perna mas tinha os dois braços em pleno funcionamento.
Também fizemos "malfeitorias". Como abrir um buraco no chão, meter lá dentro um ou dois gafanhotos vivos, tapando a cova com pequenos paus entrelaçados. Dois ou três dias depois, passávamos por lá para observarmos como um formigueiro desviara a sua rota para invadir o buraco e devorar o(s) condenado(s) gafanhoto(s) ?
E quando dávamos uma de "maus rapazes" e desatávamos à pedrada a ver quem acertava nas bicas da resina? 
Sempre fora das vistas dos pais, claro!
E não é que ele apanhava à mão os "lacraus", pequenos "escorpiões" que conseguia adivinhar escondidos debaixo de pedras?!
É verdade! 
O Virgolino nunca teve medo de "lacraus" nem em miúdo nem depois, ao longo da sua vida. 
Nem daqueles que apanhava no Milreu, nem dos outros, os de "duas pernas".
Teve uma vida difícil. 
Poderá levar a seu crédito muitas das dificuldades que teve de ultrapassar. Nalgumas não o terá conseguido como queria e como eu acho que merecia. Mas era essencialmente um ser muito humano que jamais virou costas à adversidade.
Passou por Vale de Zebro, escola de Fuzileiros.


Lá, reforçou não só a sua força física mas também a maioria dos princípios que sempre o iriam nortear, de camaradagem e espírito de sacrifício. 
Amigo do seu amigo, seu defensor incondicional, capaz de despir a própria camisa para ajudar quem dela precisasse.
Foi uma luta constante de um Homem que lutou contra todos e também consigo próprio. 
Cedo deixou a casa paterna e se fez à vida.
Foi para Angola onde prestou serviço militar. 
Casou lá e por lá ficou algum tempo.
Regressou à  "Metrópole" e continuou a sua luta. E que luta.
Fez asneiras. Continuou igual a ele próprio.
Daquele tempo, apenas me recordo de o ver com sua mulher, mãe do Paulo, pouco tempo depois de chegarem vindos de Angola, para se fixarem em Lisboa. 
Naquela altura, tenho a ideia que alguns familiares e amigos (?) não se portaram da melhor maneira para com eles.
E eu? Que desperdício!!! Estive talvez 20 anos sem o ver.
Ou seja, não nos procurámos.
Correcção! Não o procurei!
Apenas, por familiares ia sabendo dos altos e baixos da sua vida.
Finalmente há cerca de 8 anos ele surgiu em minha casa, acompanhando seu pai que se deslocara do Milreu para visitar o meu pai, seu irmão, que se encontrava muito doente, vitima de doença terminal.
Foi a última vez que estiveram juntos, o Mário, o David e o Virgolino. 
E minha mulher finalmente conheceu aquele primo, de quem eu contava mirabolantes histórias e que ela tanto esperara vir a conhecer .
Naquele dia, com espírito atormentado pelo depauperado estado de saúde de meu pai, rever o Virgolino foi como uma aberta num céu carregado.
Que saudades e recordações da nossa juventude.
Dos bailes na Casa da Pampilhosa -  dos quais sempre tentávamos dar o saldo por umas horas - para recolher fundos para a “Comissão de Melhoramentos de Milreu e Povoações Limítrofes",
E das partidas de  "snooker" no 10 Largo do Rossio?
Um deles, de má memória, na noite de uma véspera de Natal, antes da consoada com a família, em casa de meus pais, ia acabando mal.
Alguém, apanhando-nos distraídos, embrenhados no jogo, furtou uma bola de uma das bolsas.
Detectada a falta tive dificuldade em "aguentar" o Virgolino que desconfiou de um "manfio" que estava de parte a ouvir a nossa conversa com o responsável da sala. 
Logo se lhe dirigiu pronto a fazê-lo "vomitar" a desaparecida bola 5. 
Pelo modo como o outro se comportava, ninguém tirava da cabeça do meu primo que aquele “melro” tinha sido o causador da evaporação da bolinha… Para sairmos do local e não faltarmos à consoada, tivemos de pagar a bola. Jurámos não mais voltar a jogar no 10 do Rossio.
Após a sua referida  visita a meu pai, passados poucos meses ,estive de novo com ele .
Onde nos reencontrámos? Ora!
No Milreu! Em Agosto de 20002!


Na "adega" de seu pai, no rés do chão da casa. 

Bebemos o vinho morangueiro fresco - ali, sim!... à "temperatura ambiente" da adega - por canecas de esmalte, comendo presunto e queijo comprado nas Estevianas.
E pronto. 
Logo revivi nós, à entrada da adolescência, no "sapateiro" das Estevianas que exercia a sua arte na própria tasca. 
Ficava a alguns quilómetros do Milreu. 
Percorridos a pé! Nossos pais não tinham automóvel. 
E mesmo que tivessem, na altura não existiam estradas para eles.
Enquanto nossos pais se iam "alegrando" com uns copitos, eu e ele ficávamos à sombra da frondosa cerejeira no largo frente à "oficina".
Depois eu acorria ao chamamento paterno para assentar os pés num pedaço de cabedal, onde o sapateiro desenhava o contorno dos ditos. Assim era fatal! A sola ficaria à medida.
Passada uma semana e meia, duas, lá voltávamos às Estevianas para pagar e trazer as "botas" que seriam ensebadas, já em Lisboa, para eu calçar na ida para a Escola. No Ateneu eu era o único que usa bolas ensebadas.
O Virgolino gozava à brava com aquelas idas às Estevianas. 
Na altura, sediado no Milreu, onde passava os três meses de férias escolares, quando apareciam companheiros  da sua idade (ou mais ou menos…) era assim como em Lisboa irmos ao ZOO!
Não perdia uma, embora o meu tio não o obrigasse a acompanhá-lo, ao contrário do meu pai que não me queria fora de vista.
O que salvava o meu dia, era a companhia do Virgolino.
Durante a caminhada fazíamos um "jogo". 
Corríamos à frente dos adultos e de vez em quando com um pau, ou com o pé, riscávamos na poeira do caminho uma linha simulando uma meta. 
A todos eles, dávamos nomes de ciclistas – Dias dos Santos, Luciano de Sá, Alves Barbosa, Sousa Santos, Ribeiro da Silva, etc...
E às vezes o "pelotão" era numeroso pois normalmente iam connosco os avós, mais um ou dois primos já adultos - não primos direitos - e um ou outro vizinho/amigo.


Na continuação do nosso jogo aguardávamos que eles fossem "cortando a meta" e atribuíamos pontos aos três primeiros. 
A nossa memória... e o calor...não dava para mais. 
Aliás com o extenso percurso e o número elevado de etapas não era possível memorizarmos dados para coligir uma "classificação geral". 
Mas... contabilizávamos e atribuíamos o Prémio da Montanha. 
No final da " corrida", à porta do "sapateiro" e na volta, à chegada ao Milreu, proclamávamos, só para nós claro, os vencedores, das referidas "especialidades ciclísticas".
Sempre que saíamos... tínhamos corrida. 
Até quando acompanhávamos os casamentos. A pé! Desde o Milreu até Alvares sede da freguesia. 
E nas idas e vindas, sempre a pé, às festas na vizinhança (?). Todas ficavam "em cascos de rolha". As da Ervideira, da Amora, de Mega Cimeira, das Cortes, de Álvares, e já nem lembro quantas mais.
Na última vez que estive com o Virgolino, no Milreu, ele apresentou-me o Paulo. 
O seu filho, já crescido. 
Quase da minha altura. 
Gostei dele à primeira vista. 
Não foi possível um maior contacto pelo que apenas nos ficámos pelas apresentações. 
Tenho para mim que, na altura, o corpo estava ali presente mas o coração andaria por outras paragens. 


Aquele telemóvel não parava!
Depois e até à presente data eu e o Virgolino estivemos juntos três vezes.
Primeiro, no funeral de seu pai, nas Cortes, onde estive presente lembrando-me dos telefonemas mensais que o meu tio fizera, directamente do Milreu, para saber do estado de meu pai, durante um ano e meio, tantos foram os meses do seu sofrimento, até à dor final. E ainda da sua visita, em Lisboa.
Depois em 2011, em casa dos meus primos Marília e Luís, a quem agradeço terem proporcionado aquela reunião de família por altura do aniversário do Sérgio.
Finalmente, em 2013, no dia 11 de Janeiro também em alegre celebração de mais um aniversário do Sérgio, estive novamente com o Virgolino. 
Fiz, na altura um pequeno filme que publiquei no meu “Canal do Youtube”. 
O  URL (Link) correspondente já enviei aos familiares presentes e também, a seu pedido, à prima, mulher do Paulo.
Como praticamente deixei de tirar fotografias, a que se segue, o Virgolino com o “poeta” ao colo, está muito desfocada pois foi retirada do vídeo e portanto resulta de um “frame” em movimento. 
Vendo-o com o “canito” ao colo e o modo como o tratava, não tive dúvida que ele herdou do pai aquela sua muito próxima e especial relação com todos os animais.



Nem nos mais angustiantes pesadelos podíamos antecipar que, passado pouco mais de um mês e meio, o Virgolino nos deixaria para sempre.
Porém, no dia 20 de Fevereiro de 2013 apenas me despedi do seu corpo. 
Não disse Adeus, não me despedi do Virgolino! Nunca me despedirei da sua imagem, do seu riso, das escaladas nas fragas junto à ribeira, do seu feitio por vezes truculento, aquela força de não virar a cara, de olhar nos olhos frontalmente, de peito aberto. 
Ele, para mim não se foi embora.
Não consegui suster as lágrimas quando me aproximei para dar o último olhar, antes de alguém o fazer deslizar para o seu derradeiro percurso terreno.
Qualquer dia estarei com ele, pagando a dívida do afastamento. 
E dar-lhe-ei um grande abraço. Aquele abraço que terá a extensão de todo o afastamento a que a vida nos sujeitou.
E gozaremos os dois, evocando tudo o que preencheu a nossa juventude, as peripécias que nos marcaram. 
E, claro, reiniciaremos as nossas tropelias. 
Lá, onde quer que nos aceitem..., não nos segurarão!

Até daqui a pouco, Virgolino!



O teu primo,

CÂNDIDO
 03/03/2013