ARCO ESCURO (Alfama)
(Desenho lápis, minha autoria)
(Recordações 1941 /1969)
Entra-se pelo Arco Escuro. Pequena subida, no cimo da qual se volta à esquerda.
É o Beco do Arco Escuro.
Encaram-se dois degraus. Depois de vencidos e percorridos mais dois metros, chega-se à porta do prédio com o número 7, encimada por um painel de azulejos com figuras religiosas.
Inscrita, a data de construção: 1764!!!
Para se atingir o terceiro andar tínhamos de percorrer três lanços de escada, compreendendo 5 patamares a saber: a partir do único patamar no primeiro andar, mais dois por cada andar, separados por dois degraus.
Degraus em madeira, estreitos e íngremes. Inclinação superior a 40%.
Do segundo ao terceiro andar estava colocado um oleado que se agarrava aos degraus, um a um, acompanhando-os na subida e estendendo-se nos respectivos patamares. Como brilhava aquele elemento decorativo, com os seus desenhos que imitavam os dos tapetes “a sério”, nos seus castanhos e vermelhos escuros com orla de barras paralelas…
A madeira tentava acompanhar aquele brilho, pela aplicação da célebre “Encerite” - nas partes laterais não cobertas pela passadeira de oleado - espalhada pelos habitantes daqueles dois andares que, em partes iguais, compartilhavam a despesa com a aquisição do “adereço” e do mesmo modo custeavam a sua manutenção.
Os corrimãos só foram aplicados já ia adiantada a década de 70. O proprietário do imóvel, galego, fora finalmente tocado pela idade já avançada da maioria dos residentes que vinham reivindicando aquele apoio para eles já indispensável, como forma de minorar a falta de equilíbrio e a pouca força nas pernas.
Para subir a escada, franqueava-se a porta de entrada do prédio. Agora com trinco eléctrico, antigamente escancarada e periclitante nos seus gonzos. Noutros tempos ostentava, pendurada numa dobradiça, uma mão de ferro cortada acima do pulso, que segurava entre os dedos uma bola do mesmo metal.
(Aldrava)
Quando se queria chamar a atenção de um morador, batia-se com a mão (de ferro) no batente, qual martelo, e com um determinado número de fortes batidas secas identificava-se o andar do destinatário.
Se habitava o lado direito, bastavam três simples batidas.
No caso de morar no lado esquerdo, após as batidas espaçadas seguiam-se outras, rápidas, em número não quantificado. Chamava-se “repenicar”.
Exemplo: terceiro esquerdo: … TAU.… TAU.… TAU… seguidas de umas quantas “repenicadas”... tau.tau.tau.tau!
Para a nossa casa não se “repenicava”. Logo… habitávamos o andar do lado direito!
(vistas da janela da escada no patamar do 3º andar)
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ARCO ESCURO nas Minas do LOUSAL,
(Grândola) 2007 12 de Maio - 11:30
Entrámos numa loja.
Panos, colchas, guardanapos, toalhas de rosto, toalhas de mesa, alguma roupa para criança. Era a loja do artesanato têxtil mais para senhoras, que se demoraram apreciando os artigos expostos, enquanto eu rumava para a loja contígua. Aqui era a cerâmica que reinava. As peças regionais usuais do nosso artesanato, com maior incidência para a arte regional Alentejana.
Subitamente avisto numa prateleira bem alta, um prato de dimensões generosas decorado com um desenho que me pareceu familiar.
E não é que ali, no Lousal, num prato de loiça, estava retratado o “meu” Arco Escuro?
Lá estava: o Arco que, descido e torneado para a esquerda, dá acesso ao restaurante “Gaúcha”na Rua dos Bacalhoeiros.
Registadas ainda as roupas penduradas nos estendais nas janelas e uma porta de escada: “A MINHA PORTA”!
Talvez por esquecimento, o artista não pintara o 7.
ARCO ESCURO (Alfama)
No terceiro andar direito daquele prédio, número de polícia 7, há mais de 65 anos nascera aquele que viria a ser o Confrade número 8 da Confraria dos Sessentas.
Nele vivi 28 anos.
A partir de 1969 com a saída para uma nova vida, a subida daqueles degraus passaria a ser bem mais espaçada.
Utilizava o elevador… numa cidade diferente.
Ficou a saudade, a recordação da meninice, a descida veloz e barulhenta daquela escada que subi e desci diariamente vezes sem conta (e sem me cansar…).
Lembro-me de um dia ser levado ao colo de meu pai, que desceu a três e três aqueles degraus rumo ao Hospital da Estefânia por via de um prego que engoli, imitando os operários que, em obras no prédio em frente ao "nosso" os seguravam na boca antes de os martelarem nos andaimes.
Vem ainda à memória, a dificuldade de dois bombeiros de pequena estatura que, segurando uma maca, me levaram quase inconsciente até aquele íngreme terceiro andar, quando tive de regressar temporariamente a casa dos meus pais, na década de 80, após ter sido vítima de brutal atropelamento.
Porém, foram mais as vezes que aquela escada foi a via da descida para a rua onde me esperaria algo de positivo como me permitiu a subida apressada para celebrar com meus pais uma boa nova.
Minas do LOUSAL, (Grândola) 2007 12 de Maio 12:00
Saí da Loja de Artesanato.
Debaixo do braço transporto um pedaço de Alfama.
O meu bairro! O meu berço! Não poderia resistir à compra do prato. Alfama no Lousal!?
Certamente que no meio das outras peças mais apelativas acabaria esquecida, poeirenta e transladada para outro local, quiçá retirada para um escuro armazém.
Desculpas… Afinal, o Arco Escuro é meu!!!
Texto (revisto) publicado no “Jornal “ O CONFRADE nº 16 – AGOSTO 2007