sábado, 24 de julho de 2010

(3) MEMÓRIAS DE UM BANCÁRIO I I

CAUTELAS E CALDOS DE GALINHA...



Aquele “Balcão” era o máximo.
Não sei se é verdadeira a “estória” que vos passo a contar.Naquele tempo, já lá vão perto de 40 anos não existiam na TV as “tertúlias-cor-de-rosa” com as tias em horário matinal a descobrirem (?) as carecas dos colunáveis. Assim, também não existem registos que possam arqueologicamente atestar da sua veracidade. 
Mas, fonte bem informada relatou-nos… e jurou que…
O personagem central (X) do argumento, era conhecido pelos seus dotes de galã conquistador.  A sua  fama (e proveito…)  ultrapassara as fronteiras, pois algures, em terras (adoptadas) de “Saramago”, suspirava uma apaixonada "hermana" que, apenas uma vez por ano, se deslocava ao nosso (e dele também…) torrão natal.
Trabalhador (palavra!!!...) bancário exercia a actividade num balcão sito na zona ribeirinha de Lisboa. O Gerente, em funções no “balcão”, conseguira criar desde que ali chegara, uma saudável cumplicidade com todos os seus colaboradores.
Foi assim que o nosso amigo (X) não escamoteando a razão do pedido, lhe solicitou  dispensa para a parte da tarde do dia em que a referida “guapa”chegava, do país vizinho. 
O desempenho das suas tarefas já estava assegurado por solícito colega que se prontificara solidariamente a sobrecarregar as dele, na expectativa de futura retribuição." Et pluribus unum!" 
Reuniam-se, assim, as condições para o nosso herói (X) poder proporcionar à sua salerosa amiga o reconhecido bom acolhimento-luso. Enfim, uma recepção condigna com digressão guiada até à linha do Estoril, após, presumimos,um romântico almoço. 
A seguir, o programa, incluía uns momentos "zen", disfrutando de uma bela vista sobre a baia de Cascais desde a varanda de um apartamento que "alguém", prestável, colocara à disposição do nosso homem. Naquele tempo as invejas ainda não tinham inquinado as relações entre machos latino/portugas. "Et pluribus unum"... outra vez!
Faltava a anuência do Gerente que, dada a sinceridade do peticionário, a certeza do bom andamento do serviço e compreendendo que as relações luso-espanholas deviam ser acarinhadas, anuiu ao pedido, numa altura em que (ainda) éramos os maiores do Mundo, no hóquei em patins, para desespero de "nuestros hermanos". 
Assim, o "chefe" solicitou ao nervoso X , o preenchimento (em duplicado…) do impresso “oficial”. Lembram-se??? Modelo 5, creio eu…
Surpreendido, desagradado, foi com algum esforço e má-vontade que X preencheu o dito formulário, ali mesmo sobre a secretária da Gerência, pressionado pela perspectiva de uma tarde que finalmente chegara, após um ano de espera. 
Assuntos particulares obviamente, foi o motivo invocado para o pedido de dispensa.
Consta que,  enquanto se deslocava para a saída ao encontro da tarde soalheira que previa acalorada, apesar do imediato futuro romântico lhe sorrir,  à saída do Gabinete, o semblante do nosso amigo espelhava alguma decepção pela imposição do "Chefe"  em tornar “oficial” a dispensa.
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No dia seguinte, X entra cedo e dirige-se de imediato ao Gabinete do Gerente onde se senta com ar meio aéreo. Do tipo… como se explica termos perdido em futebol com o Kuwait...?
E passou a relatar as razões justificativas para aquele estranho comportamento ao princípio da manhã. 
Sensato e precavido, fizera previamente uma ronda com o dono do apartamento para se familiarizar com a porta, as luzes, cortinados e estores, janelas, TV, autoclismo, etc. etc., enfim com todos os acessórios do espaço que iria “habitar”… em curta permanência.
Lamentavelmente esquecera-se de reunir a informação sobre o funcionamento do esquentador peça fundamental que lhe permitiria a higiene oral (!) após a almoçarada. 
Completamente "às escuras", tentou ligar o aparelho. Chegou um fósforo ao “piloto”, aguardou…, aguardou… e...  provocou uma explosão que lhe chamuscou a melena, sobrancelhas, barba e bigode.  Assim, ganhara sem sorteio, um tom amarelo/acastanhado nas zonas capilares referidas, que lhe alteravam a fisionomia e que o Gerente, apesar de lhe ter notado à entrada, algo de diferente, de imediato não identificara.

Azar! 
Naquela altura não existiam os modernos esquentadores “inteligentes”…  e a alguns  utilizadores escasseava aquela qualidade!
Nem de encomenda poderia surgir o momento ideal para o "Superior" do X  lhe "explicar" a razão de lhe ter solicitado o preenchimento do tal modelo de pedido de dispensa que tanto amofinara o subscritor.
A intenção fora tão só, perante a entidade patronal, terem (o Gerente e o X) uma “cobertura” legal à dispensa, para o caso de suceder algo que impedisse o regresso ao trabalho do dispensado. O que, por coincidência, até esteve perto de acontecer  por (re)acção de um insuspeito esquentador.
O duplicado do "incomodativo" impresso ficou arquivado, em pasta, no Balcão. 
O original, enfiado num sobrescrito de serviço, foi de imediato endereçado à Secção de Pessoal *,à frente do chamuscado Don Juan - a tesoura disfarçara grande parte do estrago.


PS:* Corre(u) o boato que o dito sobrescrito se extraviou. Parece (?) que nunca chegou à Secção de Pessoal…



OOPS!!!


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