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Convém que o convite seja feito preferencialmente a alguém que também tenha pendurada ao pescoço uma maquineta. Talvez não nos corte a cabeça ou as pernas.
Mas… maravilha! Sempre podemos, in loco, verificar no visor LCD a eventual falta de habilidade do desconhecido. Se estiver muita claridade, haverá algum problema em conseguir visionar o trabalho. Não se pode ter tudo.
Antes de partir, descansámos um pouco num restaurante/bar/discoteca quase ao ar-livre, apenas coberto por um enorme telheiro de colmo.
Num espaço bem arejado, envolto no perfume inebriante da flora que o rodeia (que imagem poética…), um conjunto musical estava ensaiando o seu “Play-list”. Os clientes, acompanhando corporalmente o ritmo cubano contagiante, não chegavam a meia-dúzia, e o relógio batia o meio-dia.
O ambiente e uma cerveja fresca, bebida com prazer, ao balcão, convidavam-me a ficar por ali eternamente.
O único entrave, que teimava em tentar dar cabo do momento, era a lembrança do Subaru, sem pneu sobressalente e a sempre provável expectativa de vir a ficar pendurado, com novo “furo”, antes de recuperar aquele que ficara a reparar. Situação que o “Paco” teimosamente não aceitava como previsível.
E assim, bebida a “bejeca”, dei ordem de marcha para retorno ao “taller”.
Na oficina paguei, puxando pelos dólares USA, e depois do pneu reparado ter sido colocado na bagageira, partimos ao encontro do almoço.
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Bem…! Talvez venha a ser tema de umas futuras crónicas sobre a viagem a Cuba a publicar aqui no meu Blog - se a paciência me permitir – , as voltas e reviravoltas que demos à procura de um cozinheiro, que o “Paco” nos apresentou, depois de, por mero acaso, o termos localizado numa estrada de terceira, que dava acesso à casa onde o “cheff” vivia.
A casa em questão é uma barraca de madeira nos arredores de Viñares, num bairro tipo Musgueira nos seus tempos “áureos”, e onde supostamente iríamos deliciar-nos - e Paco nunca me deu razões para não acreditar nele - com um almoço de marisco. Que se gorou! Tudo aquilo e ainda o almoço espectacular em Viñares, numa espécie de restaurante/pousada, exclusivo para membros do governo e turistas, com os eternos músicos a tocar para nós.
Talvez me decida a pôr por escrito mais estas minhas aventuras em terras de Fidel.
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À saída de Vinãres, o Paco lançou novo repto: o de seguirmos mais para Oeste em direcção a… não me lembro que terra…, nem as maravilhas que nos esperavam lá…, também não me recordo onde… porque, subitamente o seu discurso de guia turístico foi interrompido… pelo estampido do rebentamento de um pneu!!!
- Uau!!!!!!
- Habemos novo “pinchazo”!!!
Agora sim! Acabara!
Nem quis saber de recorrer a outro taller para mandar remendar o furo. Porque, até para um leigo como eu a diagnosticar furos daquele tipo, era notório que o pneu tinha dado o seu último estoiro, pois, em vez de um daqueles furos a que estamos habituados, apresentava um extenso rasgão. Remendo? Nem pensar…
Não seria nem aquele, nem qualquer outro “Paco”, que me demoveria de fazer inversão de marcha retornando de imediato a Havana, cuja distância, a mais de 200 kms., me parecia mais longínqua, complicada e quiçá impossível de cobrir, que uma ida e volta a Júpiter.
Finalmente o “Paco” não tinha argumentos. Mais! Até concordou suprimirmos a ida no dia seguinte de manhã, à casa-museu do Ernest Hemingway.
- Por supuesto que tienes razón! – condescendeu o Paco – Vamos-nos y rápido para Havana.
- Rápido??? - Retorqui - Vamo-nos é devagarito e rezando!
Estranhamente, a minha Nela mantinha o ar de quem desfrutava de uma viagem em Jet Lear, qual CR7 repimpado em jacto de luxo, apreciando as cadeiras estofadas a pele!
Aliás, o bom humor e o modo meio acriançado como ela sempre encarou todas as contrariedades, foi determinante para que o ambiente nunca se tivesse deteriorado e a minha tensão se mantivesse em níveis saudáveis, acabando até por conseguir que eu, nós (!!!) tirássemos o melhor partido de todas as situações por mais estranhas que fossem.
Desmontado, o finado pneu foi, atirado por mim, para o porta-bagagens, com a correspondente jante. Eu estava prestes a alcançar a perfeição naquele movimento de arremesso.
Alegremo-nos!
A partir daquele momento já estávamos livres, de novas substituições de pneus.
E arrancámos, desta vez em situação tão limite que nos deu para gozar com o que nos tinha sucedido.
Seguíamos rumo a Havana, cantando a Guantanamera mas… “baixinho”…, para não perdermos o já nosso conhecido som de “pinhazo” que, desta vez, já encarávamos como certo, mais quilómetro… menos quilómetro...
O destino estava traçado.
Não há duas (dois!) sem três!
A 5ª parte e certamente a última, desta saga “pneumática”, segue dentro de… uns dias. Estou a aguardar inspiração.
Será a vez do 3º e último furo.
E da estranha reunião final com a agência de aluguer...
... e do táxi que, afinal não era…
(08/2011)
Demais!! Esse "Paco" era cá uma figura!!
ResponderEliminarDa maneira que descreveste as coisas e no fim com a descrição da Nela, parece que vi o seu ar de lady manela a "desfrutar" da viagem :-)
kiss tesouros
Que saudades do "Paco" Todos desfrutamos da viagem principalmente devido à Manuela que me desconcertou com o modo como encarou todas as incidências da "aventura".
ResponderEliminarBJKS
Cândido Neves