domingo, 8 de junho de 2014

(65) AOS 72 ANOS DEI EM FADISTA???








Já tenho idade para ter juízo, mas...

... quem tem a culpa é a minha “madrinha”, a fadista LUCIANA PITTA.

Em finais 2013, convidado por um casal amigo, fui jantar e ouvir uns fados..

Como sempre, arranhei  uns refrãos, e não me fiz rogado a alinhar com os fadistas, naquelas  estrofes em que o publico é “convidado” a comparticipar.

De repente, a meu lado, a Luciana Pitta, que organizara aquela sessão de fados, desafia-me:

- Ora bem! Depois do que lhe ouvi trautear, levante-se e venha cá cantar um fadinho, como deve ser cantado. E não diga que não!

Surpreso vi-me pressionado por outras pessoas presentes para que aceitasse o desafio. Recusei por duas razões que me pareceram óbvias. 
Primeira, eu nunca cantara um fado e segunda, nem sequer sabia de cor qualquer letra… completa!

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Nasci e vivi 28 anos no Bairro de Alfama que, como todo o mundo sabe ainda é, talvez, o mais castiço da cidade de Lisboa. Para mim, não existem quaisquer dúvidas que o é!

Sendo um Bairro ligado ao fado, com numerosas casas onde era cantada aquela expressão artística tão Portuguesa, agora Mundialmente reconhecida, talvez pareça óbvio pensar que, dadas as minhas origens, eu deveria ser, desde o berço, um apaixonado pelo fado. No mínimo, interessado por ele.
Puro engano. 
Detestei o fado até início dos meus trinta anos de existência.

Em Lisboa, as turísticas casas de fado jamais me entusiasmaram, nas reduzidas vezes que por elas passei. 

Lembro-me da Adega Machado onde estive uma vez. 

Esporadicamente frequentei o Senhor Vinho, no sítio onde nasceu, na Rua das Praças, e também a “A Casa da Cesária” em Alcântara que, na altura, não tinham sido ainda locais de roteiro turístico. 

Estranhamente, só após sair dos becos de Alfama e da minha cidade berço, é que comecei a “ouvir” fado. 

Precisamente quando fui viver para a “cosmopolita” linha do Estoril.
Na altura ainda não existia o Forte D. Rodrigo (abriu no inicio dos anos 80) em Birre, e o Manuel de Almeida estava ainda longe de cantar num espaço situado na Estrada da Torre, perto da Guia, em Cascais. Naquela cidade existiam várias casas onde se cantava o fado. 

As mais conhecidas, eram, uma ao lado do Cinema S. José (não recordo o nome) e a outra o célebre Kopus Bar.

No Estoril, junto à estação de caminhos-de-ferro, pontificava o Galito, passagem obrigatória em noitadas de fado e onde começaram alguns dos amadores que futuramente se tornaram expoentes do fado.

Desencaminhado por alguns amigos, comecei a frequentar aqueles locais, onde me senti tocado pelas interpretações de grandes vozes, e pelos sons magistralmente arrancados às guitarras e às violas. 

Aliás, aquele último dos instrumentos musicais sempre me interessara. 

Minha companheira, há muito abandonada, a viola acompanhou-me durante dois anos, em Timor, onde ”, em vários espectáculos no Sporting Club de Timor e no Sport Dili e Benfica, fui tentado interpretar canções do Cliff Richard, dos Beatles e do Ricky Nelson, entremeadas por algumas brasileiradas e principalmente por canções do “country estaduniense”

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.No que respeitava ao fado, jamais o tinha cantado e até consegui “safar-me” de o fazer, naquela noite referida no início deste meu escrito. 
Porém dada a insistência, na altura, cometi o erro de prometer que em próxima oportunidade iria tentar cantar um ou dois fados, desde que me dessem “espaço” para escolher aqueles que, em meu parecer, a minha voz mais se adequasse. 
AH! E precisava de tempo, muito(!)… para decorar os versos. E seriam certamente uns fados… “curtinhos”.

Quando pensava que o assunto já teria caído no esquecimento, eis senão quando, passadas três semanas, sou “convocado”, pela senhora Luciana Pitta, para uma sessão de fados com a ordem expressa de não poder fugir de cantar. 

Ainda não sei quem foi o (a) amigo(a) (?) que passou o meu endereço electrónico.

Mais uma vez apanhado de surpresa, fazendo das tripas coração para não ser deselegante, e com total falta de vergonha, apesar do receio de meter água, não tive outra alternativa senão a de ceder à pressão. 

E assim, com 72 anos, tive a minha primeira vez …
...como fadista. 

Fui lançado às feras, num restaurante na Várzea de Sintra, logo após o jantar.

Depois de confessar aos guitarristas, não saber o meu “tom”, lá consegui cantar os “meus” fados. Fi-lo, já no final da 1ª parte e após terem cantado fadistas, a sério, cujas interpretações me deram vontade de simular uma repentina “afonia”, receoso de, logo que abrisse a boca, vir a provocar a debandada geral e o inevitável processo, com indemnização, movido pelo restaurante.

E pronto, parece que me consegui desenrascar, frente àqueles conhecedores do fado, acompanhado por uns simpáticos e jovens guitarristas, que fizeram os impossíveis por suportar a minha falta de “calo”  descobrindo o meu tom”! 

Foi com humildade e reconhecimento que lhes agradeci, pois conseguiram amparar-me – bem como grande parte da plateia – enquanto debitava os versos da “ Canoas do Tejo” e da “Menina das Tranças Pretas”.

No final, ainda atordoado, ouvi de todos os presentes, simpáticos e cheios de boa vontade uma calorosa salva de palmas. E até me pareceu que pediram … mais um!
Pois!
Mas o que eu queria era saltar para a mesa onde os meus amigos (e a minha Manuela) gozavam que nem benfiquistas em véspera de final de Taça Europeia. Mas eu sentia-me como se a final me tivesse fugido antecipadamente.

Passados dois meses, nova experiência! 

Sempre pressionado por aquela que considero a minha madrinha para o fado e pelos meus amigos íntimos (para que preciso eu de inimigos?!) estive presente noutra sessão de fados, daquela vez, em Manique.

Nem dá para contar com minúcia! Bom... só para quem lá esteve!!! 

Foi inenarrável!!!

Dei a “barraca” do século, ao fazer naufragar “Canoas do Tejo”. 


Tive, como se usa dizer… uma “branca”. 

Cá para mim foi mais uma “negra”!

Nem via nada à minha frente! 

Aos guitarristas, com toda a assistência fazendo de “ponto”, ao qual permaneci totalmente surdo, coube a tarefa hercúlea e ineficaz de tentar minimizar os estragos. 

Para eles (todos) vai o meu apreço com a dificuldade em entender porque não me correram dali a pontapé.
Uma vez mais o meu agradecimento pela paciência que demonstraram.

Entretanto, com a Canoa no estaleiro e para não sair sem abrir a boca, cantei outra vez a Menina das Tranças Pretas pois não me tinham dado tempo suficiente, para decorar outro fado. 

A Menina em causa saiu(me) ilesa dum assassinato que se anunciava, pelo que mais uma vez, a plateia condescendente, me despediu com uma salva de palmas generosamente longa e que tomei como um incentivo para “batalhas” futuras.

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A minha última aparição, recorrendo à última réstia de coragem, após 4 meses de interregno, foi em Maio passado, regressando ao local do naufrágio da Canoa, em Manique, onde, desta vez, após ter decorado antecipadamente um outro fado (com muito esforço),apresentei-me ao público presente com o conhecido  “Zé Cacilheiro”,  para além dos meus dois… do costume. 

Pensei em cantar apenas os dois, mas a pedido, lá esgotei o meu reportório.

Não fiquei totalmente satisfeito com as minhas três interpretações. 

Mas consegui, finalmente levar a bom porto a “Canoas do Tejo”. 

As violetas da Menina da Tranças Preta não murcharam e o Cacilheiro manteve-se à tona de água conforme talvez consigam constatar, AQUI!

No final, ao levantar da tenda fui muito elogiado, confirmando-se assim a boa vontade de todos os presentes.

Como resultado, novo desafio para, no mínimo reaparecer com uma “carteira” de 6 (seis!!) fados, para a próxima noitada fadista. 

Para já e no sentido de dar satisfação ao “pedido” comecei a “trabalhar” o Amor É Louco que o Carlos Ramos tão bem cantava.

Madrinha!

Considere-me grato pela paciência que tem tido comigo, pelo incentivo e creia que tem sido um grande prazer e uma mais valia ter-vos conhecido. A si e ao António.

C Neves


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