quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

(71) MEU PAI - "SEU MILREU"


Foi no dia 16 de Fevereiro de 2003, que fiquei órfão de pai.
Faz hoje 12 anos e dois dias que meu pai me deixou e não há uma única vez que, ao recordá-lo, consiga suster lágrimas de saudade.
Em 2008, no mês de Junho, dia 26, foi quando minha mãe partiu, para se juntar a meu pai acrescentando a eternidade, aos 64 anos que viveram em comum.
Nos pouco mais de cinco anos que mediaram, entre eles,  desde que deixaram este mundo, certamente que meu pai, o primeiro lá, onde quer que se encontre, não deixou de velar por minha mãe.
Em Agosto, três meses após minha mãe ser cremada, juntei-os feitos cinza que espalhei, numa pequena, singela e humilde cerimónia, que quis solitária, apenas acompanhado pela minha Manuela, sob uma das oliveiras no quintal junto da casa onde meu pai nasceu.
Quando então iniciei uma pequena homenagem, na forma de umas breves palavras dedicadas àqueles a quem estou devendo a minha vida, levantou-se subitamente uma pequena brisa que, formando uma nuvem, nos envolveu. Sentimo-nos como se estivéssemos a ser abraçados, pelos meus pais, nesta terra, num derradeiro contacto físico.
Passados uns momentos, surpreso, emocionado, deixei-me ainda envolver pelo local que me rodeava.
Olhei à minha volta, vendo aquela casa em ruínas, telhado abatido sobre o interior esventrado. Na parede, ainda se mantinha o gradeamento da varanda sacada, agora sem o cheiro intenso a morango - das videiras do vinho “morangueiro” - que de manhã entrava pelo “nosso” quarto, quando se abria a janela ao sol de Agosto que se elevava entre os pinheiros na encosta fronteira.
Tirando as corridas, pelo meio das oliveiras, em direcção ao poço da “Fonte das Mouras” ansiando por uns mergulhos e braçadas naquela água límpida da ribeira não deixava de ser penoso os quase 30 dias que eu passava em miúdo, num lugarejo onde apenas o calor da família amenizava a falta do conforto que tinha na nossa casa em Lisboa.

Lembro-me de ouvir meu pai falar na hipótese de adquirir a casa da família, já lá vão dezenas de anos. Na altura, quer eu, quer minha mãe, fizemos todos os esforços para que tirasse aquela ideia da cabeça. 
Não lamento que o projecto fosse abandonado, tendo em consideração a distância a que o Milreu se encontra e o actual estado de desertificação do lugar. Mas passei a adorar ir até ao Milreu “do meu pai”, quando atingi a idade adulta, adoração que foi crescendo à medida que a idade me emprestava algum sentido estético, a sensibilidade de tirar o máximo das coisas boas e saber apreciar a Natureza. Que é o que mais abunda e dá prazer no Milreu.

Aqui há uns dias percorrendo a “Net” encontrei o Milreu e seus arredores, num vídeo cujas imagens finais terminam num lugar chamado Candeia onde o ramo da minha família, mais próxima de mim,  mantém uma moradia em belo estado de conservação, na qual passam alguns dias sempre que as suas obrigações o permitem.


Cândido Neves


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