O CINDERELO (versão romanceada!)
1978
1978
Aproximava-se o grande dia! Aliás, mais correctamente… a “grande noite”.
Durante dias, todos notavam o aumento exponencial da tensão que assolava o colega - na altura, já lá vão quase 40 anos, o “stress”* ainda não era expressão usada com frequência. Creio, que seriam apenas os do jet-set* (outra expressão que entretanto se banalizou neste nosso burgo de novos-ricos??!!) os utilizadores daquela importação linguística.
Durante dias, todos notavam o aumento exponencial da tensão que assolava o colega - na altura, já lá vão quase 40 anos, o “stress”* ainda não era expressão usada com frequência. Creio, que seriam apenas os do jet-set* (outra expressão que entretanto se banalizou neste nosso burgo de novos-ricos??!!) os utilizadores daquela importação linguística.
Mas voltamos ao nosso amigo.
A todo o momento anunciava, repetia até à exaustão - denunciando a sua impaciência e até algum receio - o aproximar do encontro com os futuros sogros. Seria o passo que desencadearia o processo nupcial. Ele ia pedir a mão da sua amada. Não que o evento tivesse lugar no século XVIII. Mas ele recuara… Desconfiávamos, aqueles que de perto com ele privavam, que a cerimónia teria sido por ele solicitada e quem sabe até por ele exigida.
A todo o momento anunciava, repetia até à exaustão - denunciando a sua impaciência e até algum receio - o aproximar do encontro com os futuros sogros. Seria o passo que desencadearia o processo nupcial. Ele ia pedir a mão da sua amada. Não que o evento tivesse lugar no século XVIII. Mas ele recuara… Desconfiávamos, aqueles que de perto com ele privavam, que a cerimónia teria sido por ele solicitada e quem sabe até por ele exigida.
Como acto de contrição? Como operação de lavagem da consciência demasiado pesada?Temos a acrescentar, a isso nos obriga a verdade histórica e para enquadramento das nossas suspeitas, que o colega em causa (ainda hoje se notam alguns vagos vestígios…) era um homem bem apessoado. Barba que não comprometia, pouco progressista por sempre bem aparada. A sua actividade desportiva dava-lhe um andar elástico. Movia-se com elegância e agilidade, fruto das corridas com que frequentemente devolvia longos "passing shots"* e traiçoeiros "volleys"*.
Vestuário (à civil) sóbrio, moderno.
Bom conversador, graça espontânea e oportuna, possuidor de boa voz que acompanhava com uma viola que tão bem sabia dedilhar.
Na viagem diária atravessando o Tejo, quando o tempo permitia viajar no “convés”, o Sol ia colorindo-lhe a tez com uma tonalidade só possível a um afortunado frequentador de luxuosas e longínquas paragens soalheiras ou, no mínimo, de solário em "SPA"* (outra modernice...). Esta explosiva mistura despertava terríveis invejas, ao mesmo tempo que permitia alcançar inúmeros êxitos junto do sexo feminino, com os estragos inerentes. Nelas... e não só!
Vestuário (à civil) sóbrio, moderno.
Bom conversador, graça espontânea e oportuna, possuidor de boa voz que acompanhava com uma viola que tão bem sabia dedilhar.
Na viagem diária atravessando o Tejo, quando o tempo permitia viajar no “convés”, o Sol ia colorindo-lhe a tez com uma tonalidade só possível a um afortunado frequentador de luxuosas e longínquas paragens soalheiras ou, no mínimo, de solário em "SPA"* (outra modernice...). Esta explosiva mistura despertava terríveis invejas, ao mesmo tempo que permitia alcançar inúmeros êxitos junto do sexo feminino, com os estragos inerentes. Nelas... e não só!
Saído de um casamento, havia já algum tempo, ei-lo pronto a contrair novo matrimónio.
Finalmente chegara a mulher que o iria fazer “arrumar as botas”. Aliás, passara a usar sapatos especiais, bi-coloridos, de acordo com a sua nova actividade desportiva (?!) de "golfista". O tempo dos “courts"* já era passado. Para se poupar transportava os seus “clubs”* num charmoso carrinho, com motor, pelos verdejantes “greens"* deste país.
Mas, antes do nó, era sua vontade fazer o pedido formal da mão da sua amada.
Na tarde do dia aprazado, solicitou ao “chefe” um especial alargamento no horário de entrada, após o almoço, com o fim de adquirir as últimas peças do enxoval a estrear e de acordo com a cerimónia. A solenidade do momento a isso obrigava.
Quando regressou, afogueado (lembram-se que pedira para chegar mais tarde?) carregava alguns embrulhos dos quais, orgulhoso do seu bom gosto, destacava uma caixa que continha uns sapatos novos com os quais iria pisar, com “pinta” e elegância, o solo paterno da casa do mais que certo cedente da sua filha.
Finalmente chegara a mulher que o iria fazer “arrumar as botas”. Aliás, passara a usar sapatos especiais, bi-coloridos, de acordo com a sua nova actividade desportiva (?!) de "golfista". O tempo dos “courts"* já era passado. Para se poupar transportava os seus “clubs”* num charmoso carrinho, com motor, pelos verdejantes “greens"* deste país.
Mas, antes do nó, era sua vontade fazer o pedido formal da mão da sua amada.
Na tarde do dia aprazado, solicitou ao “chefe” um especial alargamento no horário de entrada, após o almoço, com o fim de adquirir as últimas peças do enxoval a estrear e de acordo com a cerimónia. A solenidade do momento a isso obrigava.
Quando regressou, afogueado (lembram-se que pedira para chegar mais tarde?) carregava alguns embrulhos dos quais, orgulhoso do seu bom gosto, destacava uma caixa que continha uns sapatos novos com os quais iria pisar, com “pinta” e elegância, o solo paterno da casa do mais que certo cedente da sua filha.
Na hora de saír foi amplamente incentivado, apaparicado e efusivamente acarinhado, pelos colegas que se mostraram solidários, embora invejosos, especialmente, dos sapatos que tanto os impressionara.
Todos foram até à porta do Balcão despedir-se, cúmplices naquela hora com o sentir do nosso colega, olhos marejados de lágrimas (pudera…!) , acenando, desejando-lhe o maior êxito transmitindo-lhe votos para que os sapatos não o magoassem, enquanto ele se afastava com os embrulhos do enxoval onde pontificava a caixa com os “andantes” debaixo dos seus ansiosos e apaixonados braços.
Foi com elevado “suspense”* e disfarçando com ar de meninos de coro que os colegas, no dia seguinte, aguardavam ansiosos a chegada do “noivo”.
Compreende-se! Uns simpáticos colegas e "amigos" (?) na véspera, tinham ido ao seu cacifo na cave e retiraram da respectiva caixa os novíssimos sapatos comprados naquele dia e substituíram-nos pelos “chanatos” da senhora da limpeza, deixando o embrulho como se nunca tivesse sido violado.Porém, ele encaixou, com muita dignidade, “a maldade” dos colegas .
Apenas se lamentou de não ter podido usar as “chanatas”, dado serem um número abaixo do que aquele que usa.
Enfim… naquele tempo ainda havia "fair-play"*.
NOTA DO AUTOR:(*)todas as expressões importadas, tentam dar ao texto o necessário toque técnico, cultural e ou modernaço).
Todos foram até à porta do Balcão despedir-se, cúmplices naquela hora com o sentir do nosso colega, olhos marejados de lágrimas (pudera…!) , acenando, desejando-lhe o maior êxito transmitindo-lhe votos para que os sapatos não o magoassem, enquanto ele se afastava com os embrulhos do enxoval onde pontificava a caixa com os “andantes” debaixo dos seus ansiosos e apaixonados braços.
Foi com elevado “suspense”* e disfarçando com ar de meninos de coro que os colegas, no dia seguinte, aguardavam ansiosos a chegada do “noivo”.
Compreende-se! Uns simpáticos colegas e "amigos" (?) na véspera, tinham ido ao seu cacifo na cave e retiraram da respectiva caixa os novíssimos sapatos comprados naquele dia e substituíram-nos pelos “chanatos” da senhora da limpeza, deixando o embrulho como se nunca tivesse sido violado.Porém, ele encaixou, com muita dignidade, “a maldade” dos colegas .
Apenas se lamentou de não ter podido usar as “chanatas”, dado serem um número abaixo do que aquele que usa.
Enfim… naquele tempo ainda havia "fair-play"*.
NOTA DO AUTOR:(*)todas as expressões importadas, tentam dar ao texto o necessário toque técnico, cultural e ou modernaço).
BOA TARDE

Boa "estória", verdadeira, que nos leva a momentos únicos da nossa vida de simples empregados bancários.
ResponderEliminarFaço votos para que continues com a mesma disponibilidade durante muito mais tempo.
Amigo Gomes
ResponderEliminarOs simples empregados bancários como tu, eu e outros que fazem parte das “estórias” saíram, ao fim de várias dezenas de anos, pela mesma porta pela qual entraram: a da frente!
Com a consciência do dever cumprido, nem sempre com o devido reconhecimento por parte dos que subiram na vida graças ao nosso desempenho que muitas vezes ultrapassou o que era nossa obrigação, mas sempre com os olhos postos no nosso futuro e no da instituição à qual voluntariamente dedicámos grande parte da nossa vida.
A responsabilidade e a atitude profissional que diariamente era nosso ponto de honra nunca submergiu (nem deixámos que o fizessem!) o nosso outro “eu” genuíno.
Daí… as “estórias”
Teu amigo Cândido