sábado, 11 de setembro de 2010

(8) MEMÓRIAS DE UM BANCÁRIO I I I

O MISTÉRIO DA MANGA PERFURADA (1976)


A MH andava radiante.
Tinha finalmente adquirido o seu novo, belo e caríssimo casaco de cabedal, após receber o subsídio de Natal com o qual concluiu um doloroso trajecto de meses de poupança forçada.
Mas algo estava a adiar o completo estado de graça.
Era ouvi-la, durante o dia revoltada pela Natureza adversa , num Inverno que estava a ser um dos mais quentes das últimas décadas.
A partir (da ameaça!!!) dos primeiros frios, vaidosa, entrava no local de trabalho exibindo com piruetas de manequim o seu casaco de cabedal.
Para ela, as manhãs arrastavam-se penosamente (na altura o horário de trabalho diário dos bancários compreendia descanso de 2 horas para almoço que ela aproveitava para dar "ar" ao seu orgulho) e as tardes nunca mais terminavam para que ela voltasse a sentir-se irresistível.
Rapariga extrovertida, simpática, palminho de cara, divertida, as suas referências propositadamente exageradas sobre a nova, vistosa (e valiosa) peça de vestuário, eram alvo de comentários jocosos dos seus camaradas aos quais respondia com tiradas prontas, adequadas e cheias de humor.
Eis senão quando, num fim de tarde, à hora de saída (na altura 18 horas) todo o Balcão é sacudido com um estridente grito que, da boca de MH ecoa na cave onde se situavam os armários/roupeiros individuais.
Com toda a espécie de impropérios, palavrões , rubra de cólera, depois de saltar os degraus que separava a cave da área de trabalho no rés do chão, ela exigia a presença do (ou dos) responsáveis pela presença da manga do seu rico casaco entalada entre duas tábuas, das quais, testemunharam todos os presentes, sobressaíam uma série de pregos.
Esbracejando com o casaco pelo ar, dava origem a uma espécie de arco-íris com o feérico cintilar das cabeças brilhantes de meia dúzia de pregos num dos lados e do outro o brilho dos correspondentes bicos afilados.
Mesmo depois de desfeita a “magia” demorou um pouco a cair "na real".
Não foi nada fácil acalmá-la. Os seus olhos teimavam em ver a manga trespassada.
Claro que ninguém seria capaz de ter feito tal estrago ao casaco, o que no mínimo teria sido uma maldade de um monstruoso mau gosto e uma inaceitável atitude. Brincadeira tem hora....
De todos os elementos do Balcão apenas dois estavam de posse do segredo, sendo um deles obviamente o autor.
O que se passara?
O ZP , em casa, congeminara tudo. E pôs mãos à obra.
Arranjou duas tábuas.
Primeiro pregou-as .
Depois separou-as e serrou os pregos.
Numa das tábuas recolocou cabeças dos pregos e na outra as correspondentes pontas. Depois das tábuas “preparadas” levou-as para o Banco.
Às escondidas da proprietária da vestimente, retirou o casaco do armário e na área central das tábuas não abrangida pelos “pregos falsos”, colocou a manga do casaco.
Depois pregou verdadeiramente uma tábua à outra,para que ficassem unidas, mas nas zonas fora do alcance da manga.
A ilusão era perfeita.
Quando a MH retirou casaco do cabide onde estava dependurado viu uma manga atravessada por uma série de pregos.

A MH nunca mais trouxe o casaco para o local do trabalho. Passou a usá-lo exclusivamente aos fins-de-semana…
Sub-título – O Artista Carpinteiro

cNeves



4 comentários:

  1. Acabei de ler esta bela prosa.
    Foi um bom começo para a minha manhã, deixou-me bem-disposto, fez-me sorrir com naturalidade, mesmo já conhecendo o enredo.
    É disto que precisamos, não só porque nos recorda bons tempos passados, como nos ajuda a suportar as notícias deprimentes do dia-a-dia.
    Um abraço.
    Jorge Lobato

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  2. Pois estas "estórias" já foram publicadas, como te lembras, no Jornal "O Confrade". Mas o que nos fica são as lembranças. Por outro lado a minha falta de inspiração faz com que, por agora, recorra às "memórias". A propósito: posso publicar a tua história que se passou junto ao Júlio de Matos?
    Gostaria de o fazer indicando que se trta de um artigo de um grande amigo meu?
    Abraço e mais uma vez agradecido pela tua constante "vigília".
    cNeves

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  3. Com todo o prazer.
    Jorge Lobato

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  4. aaaahhhh coitada! depois de tanto tempo de espera pelo desejado casaco de cabedal, os maldosos colegas fazem uma dessas.... está boa!

    Kiss
    vfa

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