Nota: Os vídeos publicados, bem como as fotos deles retiradas, apresentam imagens de má qualidade pelo facto de se tratar de terceiras cópias e ainda pelos originais, passados para cassetes VHS (ainda não filmados em suporte digital), já acusarem mais de 12 anos de "idade"
Ainda não eram 9 horas já me encontrava ao volante do pequeno Subaru pronto a iniciar uma viagem que ficaria para sempre na minha memória.
A partida foi junto ao Hotel Ambos Mundos, Havana Velha.
Ao meu lado, a Nela. O nosso guia encaixou-se na traseira (era quase da minha altura, teria um metro e oitenta), sentado na ponta do banco, braços apoiados nas costas dos bancos da frente, espreitando entre as nossas cabeças.

Já no autocarro durante o percurso do Aeroporto para o nosso Hotel, eu tivera a oportunidade de reparar no mau estado do pavimento das estradas e das ruas da Capital Cubana.
Agora, ao volante, obrigado a uma permanente gincana, tomava contacto directo com a realidade de um péssimo piso. Lá fui tentado ingloriamente, na maior parte das vezes, evitar autênticas crateras semeadas ao longo do percurso.
Saindo da cidade, entrei na “auto-estrada” (?).
Para quem conduz nas estradas Portuguesas é suposto já não ser surpreendido com o que lhe possa aparecer pela frente. Porém, transitar numa auto-estrada cubana foi para mim uma experiência única e de perfeito delírio.
Ciclistas circulavam alegremente em contra mão.
Automóveis invertiam a marcha aproveitando as inúmeras “entradas” onde as pedras tinham desaparecido do separador central, tipo passeio.
Debaixo de viadutos, magotes de pessoas protegiam-se do sol, aguardando a paragem de um veículo que lhes desse uma boleia. Vi duas ou três camionetas de caixa aberta estacionar em várias daquelas “paragens”. Dali seguiam viagem com carga e uma lotação esgotada de passageiros que, em equilíbrio instável, lá se agarravam uns aos outros, ocupando todos os centímetros disponíveis.
Já dentro da cidade eu presenciara cenas idênticas.

Era (é!!!) assim que a população beneficia do apoio social sob a forma do transporte gratuito, uma das bandeiras do governo. A idade, o estado de conservação da maioria daqueles veículos de carga, e ainda o as esburacadas ruas e estradas, não permitiam velocidades acima de uns “saltitantes” 50 kms/ hora o que talvez explique não ter encontrado um ou mais corpos espalmados no solo.
Retornando à estrada.
Passara pouco mais de uma hora desde que partira de Havana, quando o volante decidiu guinar para a direita, ao mesmo tempo que detectámos um barulho de ligeira derrapagem.
- Pneu furado - dissemos a uma voz.
O nosso amigo chamou-lhe “pinchazo”! Mas furo é furo, em qualquer idioma. Claro que me lembrei logo do que ouvira sobre o “racionamento de pneus”, aquando do aluguer da viatura. Não gostei!
Mas estamos de férias! Em Cuba! Vamos numa de desportiva! Saímos do carro e sem surpresa lá vimos o pneu vazio e espalmado.
O “Paco”, nome fictício, apressou-se a proceder às manobras usuais para a troca de pneu. Foi rápido e eficiente: ganhou um dólar, pequena fortuna num País onde um cirurgião ganhava 28 dolares… mês!!!
Antes de arrancar (o carrito “pegou” sempre à primeira) ficou logo combinado que a primeira e próxima paragem seria para mandar remendar o furo. Avisei que, se não fosse possível fazê-lo nos próximos 10 kms.,voltaríamos de imediato para trás, em direcção a Havana.
- Que “no”!!! “Hay un taller” já ali à esquina… - descansou-me…pouco…, o “Paco”.
E mandou-me seguir em frente.
Após meia dúzia de quilómetros saíamos da auto-estrada para uma estreita via de alcatrão e passámos por debaixo da auto-estrada. A paisagem tornou-se bastante árida e a estrada virou terra batida.
Felizmente durou pouco a poeirada.
Virei à esquerda, cumprindo com as indicações do guia e fiquei de boca aberta.


“Então é assim”!!! À sombra de um telheiro de um imóvel térreo, vários sujeitos tratavam de umas bicicletas enquanto outros permaneciam sentados. Eu já tinha visto cenário semelhante em “road movies” com aqueles postos perdidos numa qualquer estrada do interior, à entrada de um deserto tipo Vale da Morte.
Apenas a música, sempre presente em Cuba, quebrava o silêncio no local. Dava para desconfiar. De certeza que o “homem do taller” não estava presente.
Bruxo!!! Aí, mais uma vez, o “Paco” se disponibilizou para resolver o problema. Eu entretanto saíra do carro.
Antes de estacionar reparara que, debaixo de uma árvore existente perto da “oficina”, aí a uns 20 metros, estava parado um Oldsmobile amarelo. Dois tipos permaneciam debruçados sob o “capot” levantado. Um deles exibia uma indumentária coberta de óleo.
Consegui, sem incomodar os presentes, meter a cabeça naquele espaço imenso que aloja um motor de carro americano… do antigamente. Cabia lá o meu Twingo…
E foi então que tive mais uma surpresa naquele dia. O motor (?) era assim do tamanho de um aspirador doméstico.
- Buenas… - avancei - Pero que motor más chiquitito… será que es cumpridor??? (Aqui lembrei-me da anedota já com barbas).
Após breve conversa fiquei a saber que os motores originais, a gasolina, gastando mais de 20 litros aos “cem”, tinham sido substituídos por pequenos motores a gasóleo. Deu para entender porque razão eu tinha dado um “bailarico” às banheiras que ultrapassara na auto-estrada. Aqueles “pesos-pesados”, com pintura retocada à trincha e cheios de cromados “picados”, espelhos, antenas, galhardetes no interior e tampões com “aplicações” nas jantes, não passavam dos sessenta… nem a descer.
Voltando ao furo...
Não me deu uma coisinha má, apenas por acaso, quando o “Paco” chega junto a mim, ainda com o pneu furado na mão e me diz que não há hipótese de ser arranjado na hora e que o melhor (que remédio!) … - é deixá-lo e vir recolhê-lo mais tarde.
- E para passar o tempo … - acrescentou - devíamos aproveitar, e dar uma saltada a Soroa. Fica a pouco mais de 5 kms - afirma ele pertencendo descansar-me.
- De certeza que seria muito azar se sucedesse qualquer percalço - (tradução livre) – acrescentou.
Em tempo: Soroa não constava do plano de viagem como a primeira paragem da volta turística, mas sim Piñar del Rio, cidade localizada a Oeste de Havana. Conhecida por possuir a maior plantação de tabaco da Ilha, é ainda uma estância turística que possui um belo Hotel com piscina a condizer.
Por motivos óbvios todo o itinerário teve de ser alterado. Acabámos por almoçar em Viñares .Um dia contarei a aventura que foi a minha estadia aquela última cidade, do cozinheiro que conheci na “musgueira lá do sítio”, do almoço na pousada, do táxi clandestino, da “rica” cubana que no seu domicílio nos vendeu charutos depois de termos “fintado” a polícia , enfim… recordações inesquecíveis. Arrepiantes para alguns.
E o ”Paco” continuava entusiasmadíssimo (?!).
- Damos una vuelta para ustedes verem as paisajes, e volveremos para levantar o “neumático” !
Eu ia passando-me dos carretos:
- Mas… como!? “Paco!!! – atirei eu quase aos berros - Queres convencer-me a sair daqui, sem “neumático” sobressalente, sujeito a novo pinchazo? Numa tierra com problemas para se encontrar neumáticos!? És “loco”? Yo, no lo soy!!!
- Por Dios – interrompeu o cubano - que mala suerte!!! Vamo-nos… sin miedos...
C´os diabos… com tamanha devoção e fé em Dios, eu, sem o apoio de minha mulher que ria da atitude desenrascada do puto cubano, atirei com os medos para trás das costas e depois do pneu depositado à porta do “taller” fizemo-nos à estrada!
Que se lixe!
Não era aventura que eu queria?
Qual inconsciência…?!
Prá frente é que é o caminho!
Próxima etapa: o 2º furo
NOTA: Esta série de relatos, de "cariz rodoviário," tem apenas como tema as peripécias ligadas aos furos dos pneus. Outras situações, que talvez eu não tenha coragem para repetir, serão objecto de futuros “capítulos” que penso publicar aqui neste meu blog.
CUBA HOTEL AMBOS MUNDOS http://www.youtube.com/watch?v=jEpSTG6wKYA
CUBA LA BODEGITA DEL MEDIO http://www.youtube.com/watch?v=IQyNl5zqA1E
CUBA TRANSPORTES GRATUITOS http://www.youtube.com/watch?v=m_-ASeAYNWI
CUBA 1ª MUDANÇA DE PNEU http://www.youtube.com/watch?v=t33HT4QFjqc
CUBA ESTAÇÃO DE SERVIÇO http://www.youtube.com/watch?v=C2U0asRD9dU
Gostei. Bom Português. Estás no bom caminho .Dou o meu aval. Embora pouco valha, mas és mesmo cronista. Abaços e venha mais.
ResponderEliminarVeríssimo Ferreira
Meu caro, agradeço as tuas palavras e ainda a tua pachorra para leres as minhas divagações pelo passado. Assim, na qualidade de meu fã, obrigas-me a tentar manter estas minhas "crónicas" que não atingindo o nível das tuas Crónicas Higiénicas (que saudades...) ainda assim parece que te dão algum gozo. Abraço
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