segunda-feira, 5 de setembro de 2016

(73) Ciao Nelson... até à próxima...


Hoje, o Nelson partiu da vida terrena, mas nela continuará presente, no coração e na memória de familiares e amigos.
Conheci-o no Banco Borges & Irmão, ainda antes de trabalharmos juntos, durante quatro anos, no Balcão do C. Sodré. Sem dúvida aquele local de trabalho que mais me marcou - e passei por 11 (onze!) alguns por curtos períodos e noutros até fui repetente…
Nelson foi, no referido Balcão, um dos elementos com influência no bom ambiente de trabalho que então reinou. 
Piada fácil, exímio contador de anedotas, sempre com “apartes” cheios de ironia.
Cantava e bem, acompanhando-se à viola que sabia tocar como poucos. Eu sei que o ouvi!
Durante anos foi um assíduo frequentador, praticante e entusiasta, das “quadras de ténis”.
Depois e logo que deixou o ténis, entrou em força nos “green”, arrastando consigo colegas que o seguiram e que lhe devem o conhecimento e a prática daquela modalidade.
Era (é) membro da Confraria dos 60s, desde a primeira hora, colaborando nos trabalhos da criação da mesma, tornando-se o Confrade número 1, como ditou o sorteio para atribuição da ordem dos 10 confrades fundadores. 
Colaborou quer como elemento da estrutura da Confraria, quer fora dela, na preparação de eventos, como por exemplo o inesquecível dia passado nas Minas do Lousal.
Durante a doença que o minou falámos umas poucas vezes. Nos diálogos que estabelecemos, sempre demonstrou uma enorme força de vontade e querer na luta que travava perante circunstâncias que finalmente, hoje, o venceram.
Balança (quase Escorpião) aniversariante no mesmo mês - Outubro - em que eu próprio tenho vindo a adicionar mais um ano - desta vez, lamentavelmente, não trocaremos os anuais telefonemas de parabéns.

À família enlutada os meus sinceros pêsames

Recordo os bons momentos que vivemos - recordá-los-ei sempre - para além da relação profissional.
E não posso deixar de sorrir, ao lembrar-me do modo irónico como que aceitou a “estória” que passarei a reproduzir e que foi publicada num dos números do jornal da Confraria,  “O CONFRADE”, na Rubrica SOTÃO DO CONFRADE - e também no meu Blogue.
É um episódio sem personagem identificado – até hoje - e que, então, só foi publicado após prévia autorização do Nelson. Que certamente lá, onde estiver, não deixará de sorrir.
Ciao, Nelson! Até Breve!

Do teu amigo, Cândido Neves
04/09/2016

SOTÃO DO CONFRADE
CINDERELA  (versão romanceada!)

Aproximava-se o grande dia! Aliás, mais correctamente… a “grande noite”.
Durante dias, todos os colegas notavam o aumento exponencial da tensão que o assolava. Na altura, já lá vão uns bons e largos anos, o “stress” ainda não era expressão usada com frequência. Creio, até, que, apenas os do jet-set (outra conjunção que só muito recentemente se banalizou neste nosso burgo de novos-ricos) seriam únicos utilizadores daquela importação linguística.
Mas voltamos ao nosso amigo. A todo o momento anunciava, repetia até à exaustão denunciando a sua impaciência e até algum receio, o encontro, com os futuros sogros, que se aproximava.
Seria o passo que desencadearia o processo nupcial. Ele iria pedir a mão da sua amada. Não que o evento tivesse lugar no século XVIII.
Sempre pensámos, aqueles que de perto privaram com ele, que a cerimónia teria sido por ele solicitada e quem sabe até por ele exigida.
Temos de acrescentar, a isso nos obriga a verdade histórica e para enquadramento das nossas suspeitas, que o colega em causa (ainda hoje se notam alguns vestígios…) era um homem bem apessoado. Barba que não comprometia, pouco progressista por sempre bem aparada. A sua actividade desportiva dava-lhe um andar elástico. Movia-se com elegância e agilidade, fruto da corrida com que frequentemente devolvia longos passing shots e traiçoeiros volleys.
Vestuário (à civil) sóbrio, moderno, bom conversador, graça espontânea e oportuna, possuidor de boa voz que acompanhava com uma viola que tão bem sabia dedilhar. A própria viagem diária para o Banco (e do Banco para casa), quando o tempo permitia viajar no “convés”, coloria-lhe a tez de uma cor só possível a um afortunado frequentador de luxuosas e longínquas paragens soalheiras ou, no mínimo, de solário em SPA* (outra invenção modernaça). Esta explosiva mistura despertava terríveis invejas, ao mesmo tempo que permitia alcançar inúmeros êxitos junto do sexo feminino, com os estragos inerentes.
Saído, havia já algum tempo, de um casamento, ei-lo pronto a contrair novo matrimónio. Finalmente chegara a mulher que o iria fazer “arrumar as botas” - agora usa sapatos especiais, bi-coloridos, de acordo com a sua nova actividade desportiva (?!).
Antes, porém, iria, queria (!), fazer o pedido formal da mão da sua amada.
Na tarde do dia aprazado, solicitou ao “chefe” um especial alargamento no horário de entrada após o almoço, com o fim de fazer as últimas compras pois o momento solene implicava a aquisição de vestuário a “estrear”.
Quando regressou, afogueado (lembram-se que chegara mais tarde?) carregava alguns embrulhos dos quais, orgulhoso do seu bom gosto, destacava uma caixa que continha uns sapatos novos com os quais iria pisar solenemente o solo paterno, da casa do mais que certo cedente da sua noiva.
Na hora da saída foi amplamente incentivado, acarinhado, cumprimentado, pelos colegas que se mostraram solidários, embora invejosos, especialmente, dos sapatos que tanto os impressionara.
De tal modo que, momentos antes, permanecendo a caixa com os ditos no armário do seu orgulhoso proprietário, tinham resolvido retirá-los e substitui-los pelos “chanatos” da senhora da limpeza.
Todos os colegas, cúmplices naquela hora com o sentir do nosso colega, olhos marejados de lágrimas (pudera…!) foram até à porta do Balcão despedir-se, acenando, desejando-lhe o maior êxito transmitindo-lhe votos para que os sapatos não o magoassem, enquanto ele se afastava com os embrulhos do enxoval onde pontificava a caixa, embrulho artisticamente refeito, debaixo dos seus ansiosos e apaixonados braços.

NOTA DO AUTOR: O que se passou no dia seguinte de manhã, quando o “noivo” entrou no Balcão, não se reveste de qualquer interesse. Ele encaixou, com muita dignidade, “a maldade” dos colegas: Expressou, no entanto o seu lamento por não poder usar as “chanatas”, dado terem um tamanho inferior ao que ele usava. Enfim… naquele tempo ainda havia fair-play.

Em tempo: Alguns "amigos" consideraram a publicação deste texto, como... "mais uma à Neves" ... não o aceitando muito bem. Passados alguns dias recebi da viúva, Helena, o e-mail que passo a transcrever:

"...De: Helena Palma Neto
Enviada: sexta-feira, 16 de Setembro de 2016 12:38
Para: Candido Neves
Assunto: Re: CIAO... NELSON!

Obrigada Neves, por estas suas palavras.
O Nelson teria gostado muito,e rido ao recordar as "patifarias" que faziam naquela altura. Também para ele, o Balcão do Cais do Sodré era o único  que recordava com saudade, bem como alguns dos colegas. Até eu lá passei alguns bons momentos, quando ainda tinham duas horas para almoço, e se reuniam lá em baixo até o Banco voltar a abrir.
 Bons tempos. Ainda bem que os vivemos, só assim os podemos recordar.
Desculpe só agora agradecer, mas não me é fácil abrir o mail do meu marido.
Um abraço, e mais uma vez obrigada.
Helena Palma Neto

Nota: O meu texto foi por mim enviado através de e-mail a toda a "Confraria" e como não tinha ainda retirado o endereço do Nelson, a Helena teve conhecimento do mesmo resultando daí a sua reacção que agora tomo a liberdade de "postar".



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