Hoje, o Nelson partiu da vida terrena, mas nela
continuará presente, no coração e na memória de familiares e amigos.
Conheci-o no Banco Borges & Irmão, ainda antes de
trabalharmos juntos, durante quatro anos, no Balcão do C. Sodré. Sem dúvida
aquele local de trabalho que mais me marcou - e passei por 11 (onze!) alguns
por curtos períodos e noutros até fui repetente…
Nelson foi, no referido Balcão, um dos elementos com
influência no bom ambiente de trabalho que então reinou.
Piada fácil, exímio contador de anedotas, sempre com “apartes” cheios de ironia.
Piada fácil, exímio contador de anedotas, sempre com “apartes” cheios de ironia.
Cantava e bem, acompanhando-se à viola que sabia tocar como poucos. Eu sei que o ouvi!
Durante anos foi um assíduo frequentador, praticante e
entusiasta, das “quadras de ténis”.
Depois e logo que deixou o ténis, entrou em força nos
“green”, arrastando consigo colegas que o seguiram e que lhe devem o
conhecimento e a prática daquela modalidade.
Era (é) membro da Confraria dos 60s, desde a primeira
hora, colaborando nos trabalhos da criação da mesma, tornando-se
o Confrade número 1, como ditou o sorteio para atribuição da ordem dos 10
confrades fundadores.
Colaborou quer como elemento da estrutura da Confraria, quer fora dela, na preparação de eventos, como por exemplo o inesquecível dia passado nas Minas do Lousal.
Colaborou quer como elemento da estrutura da Confraria, quer fora dela, na preparação de eventos, como por exemplo o inesquecível dia passado nas Minas do Lousal.
Durante a doença que o minou falámos umas poucas vezes.
Nos diálogos que estabelecemos, sempre demonstrou uma enorme força de
vontade e querer na luta que travava perante circunstâncias que finalmente,
hoje, o venceram.
Balança (quase Escorpião) aniversariante no mesmo mês - Outubro
- em que eu próprio tenho vindo a adicionar mais um ano - desta vez, lamentavelmente,
não trocaremos os anuais telefonemas de parabéns.
À família enlutada os meus sinceros pêsames
Recordo os bons momentos que vivemos - recordá-los-ei
sempre - para além da relação profissional.
E não posso deixar de sorrir, ao lembrar-me do modo
irónico como que aceitou a “estória” que passarei a reproduzir e que foi publicada num dos números do jornal da
Confraria, “O CONFRADE”, na Rubrica
SOTÃO DO CONFRADE - e também no meu Blogue.
É um episódio sem personagem identificado – até hoje - e
que, então, só foi publicado após prévia autorização do Nelson. Que certamente
lá, onde estiver, não deixará de sorrir.
Ciao, Nelson! Até Breve!
Do teu amigo, Cândido Neves
04/09/2016
04/09/2016
SOTÃO DO CONFRADE
CINDERELA (versão
romanceada!)
Aproximava-se o grande dia!
Aliás, mais correctamente… a “grande noite”.
Durante dias, todos os colegas
notavam o aumento exponencial da tensão que o assolava. Na altura, já lá vão
uns bons e largos anos, o “stress” ainda não era expressão usada com
frequência. Creio, até, que, apenas os do jet-set (outra conjunção que só muito
recentemente se banalizou neste nosso burgo de novos-ricos) seriam únicos
utilizadores daquela importação linguística.
Mas voltamos ao nosso amigo. A
todo o momento anunciava, repetia até à exaustão denunciando a sua impaciência
e até algum receio, o encontro, com os futuros sogros, que se aproximava.
Seria o passo que desencadearia o
processo nupcial. Ele iria pedir a mão da sua amada. Não que o evento tivesse
lugar no século XVIII.
Sempre pensámos, aqueles que de
perto privaram com ele, que a cerimónia teria sido por ele solicitada e quem
sabe até por ele exigida.
Temos de acrescentar, a isso nos
obriga a verdade histórica e para enquadramento das nossas suspeitas, que o
colega em causa (ainda hoje se notam alguns vestígios…) era um homem bem
apessoado. Barba que não comprometia, pouco progressista por sempre bem
aparada. A sua actividade desportiva dava-lhe um andar elástico. Movia-se com
elegância e agilidade, fruto da corrida com que frequentemente devolvia longos
passing shots e traiçoeiros volleys.
Vestuário (à civil) sóbrio,
moderno, bom conversador, graça espontânea e oportuna, possuidor de boa voz que
acompanhava com uma viola que tão bem sabia dedilhar. A própria viagem diária
para o Banco (e do Banco para casa), quando o tempo permitia viajar no
“convés”, coloria-lhe a tez de uma cor só possível a um afortunado frequentador
de luxuosas e longínquas paragens soalheiras ou, no mínimo, de solário em SPA* (outra
invenção modernaça). Esta explosiva mistura despertava terríveis invejas, ao
mesmo tempo que permitia alcançar inúmeros êxitos junto do sexo feminino, com
os estragos inerentes.
Saído, havia já algum tempo, de
um casamento, ei-lo pronto a contrair novo matrimónio. Finalmente chegara a
mulher que o iria fazer “arrumar as botas” - agora usa sapatos especiais,
bi-coloridos, de acordo com a sua nova actividade desportiva (?!).
Antes, porém, iria, queria (!),
fazer o pedido formal da mão da sua amada.
Na tarde do dia aprazado,
solicitou ao “chefe” um especial alargamento no horário de entrada após o
almoço, com o fim de fazer as últimas compras pois o momento solene implicava a
aquisição de vestuário a “estrear”.
Quando regressou, afogueado
(lembram-se que chegara mais tarde?) carregava alguns embrulhos dos quais,
orgulhoso do seu bom gosto, destacava uma caixa que continha uns sapatos novos
com os quais iria pisar solenemente o solo paterno, da casa do mais que certo
cedente da sua noiva.
Na hora da saída foi amplamente
incentivado, acarinhado, cumprimentado, pelos colegas que se mostraram
solidários, embora invejosos, especialmente, dos sapatos que tanto os
impressionara.
De tal modo que, momentos antes,
permanecendo a caixa com os ditos no armário do seu orgulhoso proprietário,
tinham resolvido retirá-los e substitui-los pelos “chanatos” da senhora da
limpeza.
Todos os colegas, cúmplices naquela
hora com o sentir do nosso colega, olhos marejados de lágrimas (pudera…!) foram
até à porta do Balcão despedir-se, acenando, desejando-lhe o maior êxito
transmitindo-lhe votos para que os sapatos não o magoassem, enquanto ele se
afastava com os embrulhos do enxoval onde pontificava a caixa, embrulho
artisticamente refeito, debaixo dos seus ansiosos e apaixonados braços.
NOTA DO AUTOR: O que se passou no dia
seguinte de manhã, quando o “noivo” entrou no Balcão, não se reveste de
qualquer interesse. Ele encaixou, com muita dignidade, “a maldade” dos colegas:
Expressou, no entanto o seu
lamento por não poder usar as “chanatas”, dado terem um tamanho inferior
ao que ele usava. Enfim… naquele tempo ainda havia fair-play.
Em tempo: Alguns "amigos" consideraram a publicação deste texto, como... "mais uma à Neves" ... não o aceitando muito bem. Passados alguns dias recebi da viúva, Helena, o e-mail que passo a transcrever:
"...De: Helena Palma Neto
Enviada: sexta-feira, 16 de Setembro de 2016 12:38
Para: Candido Neves
Assunto: Re: CIAO... NELSON!
Para: Candido Neves
Assunto: Re: CIAO... NELSON!
Obrigada Neves, por estas suas palavras.
O Nelson teria gostado muito,e rido ao recordar as "patifarias" que faziam naquela altura. Também para ele, o Balcão do Cais do Sodré era o único que recordava com saudade, bem como alguns dos colegas. Até eu lá passei alguns bons momentos, quando ainda tinham duas horas para almoço, e se reuniam lá em baixo até o Banco voltar a abrir.
O Nelson teria gostado muito,e rido ao recordar as "patifarias" que faziam naquela altura. Também para ele, o Balcão do Cais do Sodré era o único que recordava com saudade, bem como alguns dos colegas. Até eu lá passei alguns bons momentos, quando ainda tinham duas horas para almoço, e se reuniam lá em baixo até o Banco voltar a abrir.
Bons tempos. Ainda bem que os vivemos, só assim os
podemos recordar.
Desculpe só agora agradecer, mas não me é fácil abrir o
mail do meu marido.
Um abraço, e mais uma vez obrigada.
Helena Palma Neto
Nota: O meu texto foi por mim enviado através de e-mail a toda a "Confraria" e como não tinha ainda retirado o endereço do Nelson, a Helena teve conhecimento do mesmo resultando daí a sua reacção que agora tomo a liberdade de "postar".


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