
O “dono” deste Blog era um dos colaboradores (Chefe de Redacção… hehehehe) de um “Jornal” .
De circulação muito restrita, editado mensalmente, era distribuído em mão ou por CTT aos seus interessados leitores. Mais tarde passou a ser editado em PPS e enviado através da Net para os “cotas mais avançados” capazes de aceder àquela modernice - com som e tudo, o que valeu rasgados elogios ao subscritor deste Blog.
A maior tiragem de sempre (50 exemplares) foi alcançada apenas uma vez… Ver Guiness Book of Records”.
No interior do referido “jornal” , impresso em HP caseira que em determinado número alcançou o (outro!) recorde de 8 páginas em tamanho A 5 (!), existia uma secção reservada a “Recordações”.
Para o recheio da “secção literária” eram insistentemente convidados os referidos cinquenta – chamemos-lhes assinantes / leitores a fazer chegar à redacção do “mensário” as histórias das suas vidas profissionais.
Todos eles eram reformados bancários - a maioria felizmente ainda o está...!
A Redacção do “jornal” criou elevadíssimas expectativas face ao que parecia ser um manancial de histórias que certamente recheavam uma média de 30 anos de profissão, por cada um dos possíveis “historiadores”.
Que histórias não teriam para contar tantos trabalhadores que lidaram uns directamente com o público, outros nos Serviços Internos, alguns até com funções chefia.
Episódios com colegas, com chefes, dentro das instalações, fora delas. Chatices, coisas com piada, enfim, algo assim tipo “Flagrantes da Vida Real” ou até, porque não... “Piadas de Caserna”.
A “estrutura” responsável do “jornal” esperava enorme adesão e quiçá um estrondoso êxito editorial. Já pensava até em coligir todas as “histórias” em livro e fazer concorrência à Fátima Lopes, à Júlia Pinheiro, à Carolina Salgado, etc..
Balde de água fria, desencanto! Menos de 5 (cinco!) durante dois anos responderam à chamada. Alguns apenas com um escrito.
Dois textos publicados no “jornal” já aqui foram “postados”. E hoje será mais um. Mas desta vez a autoria não é do Bloguista!
Resolvi homenagear o colega e amigo que colaborou e mais contribui (3 textos, três!) para o “Sotão de Recordações”. Que, resta referir, apesar de tudo… foi um êxito! Assim, neste post, mais abaixo, irei publicar uma história do Jorge Lobato.
E faço-o porque acho a história deliciosa, bem escrita, com um final de filme mudo/cómico, e sem o risco de ver esta minha atitude classificada como uma forma de destacar um colega a quem me ligam fortes laços de amizade, como todos sabem, pois oportunamente, no sítio próprio, agradeci a “todos” aqueles que colaboraram com a equipa do “Jornal O Confrade”.
PM (Post Morten): Desde final do mês de Junho passado, a “folha dos confrades” enterrada há uns meses, passou a ter como companhia o defunto 24 Horas.
O SOTÃO DO CONFRADE
“Quem Te Avisa Nem Sempre Teu Amigo É”
de Jorge Lobato
Na Av. dos EU tínhamos uma colega que era uma fumadora inveterada, os seus dedos da mão direita, com especial incidência para os dedos médio e indicador, por força do vício, tinham aquela cor amarela - acastanhada típica do uso continuado e sistemático do cigarrito. Quando não estava a atender clientes o cigarro morava de forma contínua entre os seus dedos, pois acendia uns com os outros, aspirando sofregamente o fumo que deles se desprendia, saboreando aquelas baforadas como processo único de prazer.
O seu vício e dependência eram tão evidentes que um famoso jogador do Sporting, nosso cliente (dados os anos passados porque não referir o seu nome: Yazalde), quando tinha que aceder ao cofre, que tinha alugado, presenteava esta nossa colega com um enorme e apetecível charuto cubano.
Esta querida colega morava com os pais na Av. Rio de Janeiro e fazia a pé o caminho entre a sua casa e trabalho passando na Av. do Brasil junto ao muro do hospital Júlio de Matos.
Um belo dia depois do trabalho e de não sei quantos maços de tabaco ia, a nossa colega, calcorreando calmamente a calçada junto ao muro do hospital, sorvendo deliciada e abstraída mais um cigarro na sua marcha de regresso a casa quando é interpelada por um doente daqueles que fardavam de cotim, com um ar um pouco vago e aspecto desleixado, para melhor entenderem : um maluco. Teve desta forma que interromper o seu acto de prazer para dar atenção ao doente pensando que, como tantas vezes sucedia, este iria pedir-lhe um cigarro ou vinte e cinco tostões. Os vinte e cinco tostões ainda vá que não vá, mas o cigarrito confidente de tantos pensamentos, companheiro de alegrias e solidão constituiria quase uma afronta.
Depois destas conjecturas e para espanto da nossa colega o alienado não lhe pediu dinheiro, nem cigarros, pois limitou-se a informa-la que no final do muro do hospital estava um maluco que presenteava os transeuntes descuidados com uma valente e sonora bofetada.
Aliviada de não lhe terem pedido para abdicar de um fiel companheiro agradeceu reconhecida e continuou a sua marcha saboreando e inalando longamente o fumo do seu cigarro.
Nunca mais se lembrou da recomendação que lhe foi feita pelo que, quando estava a chegar ao fim do muro, levou, segundo a própria, a maior estalada da sua vida.
Passada a estupefacção e controlada a dor verificou que o autor do gesto tão condenável era o mesmo maluco que a tinha avisado.
Mais tarde viemos a saber que o doente tinha uma patologia de dupla personalidade.
A nossa colega continuou a fazer, como sempre, o mesmo caminho diário, acendendo e saboreando os seus cigarros mas nunca mais junto ao muro do hospital.
J Lobato
Um agradecimento pessoal e amigo aos meus companheiros de Redacção
João Merca
Rosário Gomes
CÃNDIDO NEVES

Caro Candido,
ResponderEliminarDá-me prazer em reler esta história, por duas razões:
1º- Gosto da forma como apresentas os assuntos;
2º- O ouvir falar no nosso amigo comum, Jorge Lobato.
Que continues a ter o gosto pelas coisas da Confraria e nos faças recordar tempos passados.
Bem haja!
Rosario Gomes
Impossível é esquecer os amigos verdadeiros.
ResponderEliminarAquilo que nos une, tudo o que fortalece o sentimento que nos une. Digam o que disserem, as recordações serão as últimas imagens que nos abandonarão.
Abraço para todos os meus amigos. Que, felizmente tenho! Poucos... mas muito bons!
Cândido Neves
Bom post! Lembranças passadas mas nunca esquecidas.
ResponderEliminarTive a honra de ouvir esta história antes de a ler :-)
Bjkas
vfa