(Faculdade de Ciências Médicas - Lisboa)Desde que me compenetrei que um dia tinha de morrer (pensamentos ausentes até para aí os meus 50 anos, quando finalmente comecei a tomar consciência do desaparecimento de entes queridos e não só) fui alimentando a ideia de contribuir para algo que servisse a sociedade, coisa que à primeira vista me pareceu demasiado pretensiosa para um cidadão obscuro como eu.
Não plantei uma árvore (desculpa: sou Lisboeta…),
não escrevi um livro (estes escritos no blog não contam) e...
não tenho um filho. Perdão: até tenho dois… que são filhos de minha mulher…
Acresce que quando morrer não deixarei quaisquer bens como herança.
Pergunto-me. Que andei cá a fazer? Não deixo rasto? Necessário se torna dizer que seria capaz, se tal fosse possível, de “reviver” a minha vida tal qual como tem sido até agora.
Não tenho razões de queixa. Assumo totalmente e sem arrependimento ou frustração todas as opções que tomei.
Depois de ter tido a oportunidade de ler algumas notícias, seguido debates e tomar conhecimento de alertas sobre a dificuldade com que se bate a Medicina com a falta de disponibilidade de cadáveres humanos para estudo e pesquisa, conclui ter encontrado uma forma de ser útil à sociedade.
Assim, em 20 de Setembro contactei telefonicamente o Departamento de Anatomia da Faculdade de Ciências Médicas na Universidade Nova de Lisboa e no primeiro dia de Outubro ficou concretizada a doação do meu cadáver.
Parece-me que sempre poderei servir a humanidade (desculpem-me a imodéstia!).
Finalmente deixo a minha “herança”.
Quem sabe, possa ainda contribuir com algo que beneficie os bisnetos de minha mulher...
cNeves
PS: E deixem-me imaginar ser manuseado por umas estudantes médicas, giríssimas, uns borrachinhos debruçadas sobre o meu corpo de… bisturi mas mãos…?

cNeves
EM TEMPO:
No Brasil também se luta com dificuldades na obtenção de cadáveres.
Sobre o assunto acima li hoje, na Net, intervenções de dois professores de Anatomia, presentes num encontro da especialidade, na cidade de Natal - Brasil, cujos excertos me permito reproduzir.
No Brasil também se luta com dificuldades na obtenção de cadáveres.
Sobre o assunto acima li hoje, na Net, intervenções de dois professores de Anatomia, presentes num encontro da especialidade, na cidade de Natal - Brasil, cujos excertos me permito reproduzir.
“…O assunto foi destaque, mostrando a dificuldade das instituições de ensino em encontrar um cadáver para fins de pesquisa..
André Davim; o professor de Anatomia da UFRN ressaltou a formação humana de qualquer pessoa, como primordial para a decisão acerca da concessão do cadáver. “Se você tem uma boa formação como pessoa, está mais estruturado para tomar decisões rápidas, principalmente sobre assuntos delicados”.
A formação psicológica também foi compartilhada pelo professor José Eduardo, filósofo, que foi buscar na questão cultural a justificativa para a doação de cadáveres. “A visão que temos, uma sacralização do corpo, não tem mais razão de ser. Quando tudo passa a ser fenômeno, o eu desaparece porque se confunde com o corpo. Eu não acredito que o corpo humano possa servir para alguma coisa depois de morto que não seja a medicina. Mas, pra mim, doar o cadáver pra estudo acadêmico é uma forma de continuar vivo”, afirma…”
André Davim; o professor de Anatomia da UFRN ressaltou a formação humana de qualquer pessoa, como primordial para a decisão acerca da concessão do cadáver. “Se você tem uma boa formação como pessoa, está mais estruturado para tomar decisões rápidas, principalmente sobre assuntos delicados”.
A formação psicológica também foi compartilhada pelo professor José Eduardo, filósofo, que foi buscar na questão cultural a justificativa para a doação de cadáveres. “A visão que temos, uma sacralização do corpo, não tem mais razão de ser. Quando tudo passa a ser fenômeno, o eu desaparece porque se confunde com o corpo. Eu não acredito que o corpo humano possa servir para alguma coisa depois de morto que não seja a medicina. Mas, pra mim, doar o cadáver pra estudo acadêmico é uma forma de continuar vivo”, afirma…”
Caro Neves,
ResponderEliminarFico satisfeito pela tua atitude perante o sentido da vida e do que fica para além da morte.
Fico a pensar no significado da tua vontade, em legar o teu corpo, para bem da Humanidade.
Espero que outras pessoas sigam o teu exemplo.
Um abraço deste amigo de sempre,
Rosário Gomes
Bom ponto de vista...é um forma de deixar a nossa herança para o bem da humanidade. Para a terra? Não, obrigado.Das cinzas só para fertilizar uma planta.Assim sendo acabamos por transformar o corpo no centro das atenções das ditas estagiaria que ficaram com uma ideia do que foram tempos bem passados!!! :D
ResponderEliminarGrande Abraço,
Tiago R.
Concordo! Mas sinceramente tenho uma duvida entre doar o meu cadáver ou ser cremada em que as cinzas sejam espalhadas pelo mar... vou pensar! ok?!
ResponderEliminarKiss
Paulinha,
ResponderEliminarObrigado por "passares" pelo meu blog.
A Manuela já aderiu tendo terminado o processo.
Outra amiga nossa também resolveu acompanhar-nos.
A mãe do Zé Maria (médica anestesista) enviou-me um mail, do qual tomo a liberdade de transcrever: "...Oi Candido!!
Da parte que me toca, como mulher, mãe e profissional, agradeço-lhe este gesto.
Ainda este ano tive um curso de via aérea e fibroscopia, com treino em cadaveres, que por esta mm razão se revelou muito útil e didáctico...".
Estou a tentar, através do Facebook, criar um movimento (cause) para conseguir mais aderentes a esta forma de contribuir para a pesquisa médica em corpo humano. As gerações presentes e futuras certamente agradecerão.
Kisses